Segunda-feira, 9 de Junho de 2008

Portugal no novo quadro internacional

«Somos livres, mais democráticos do que 1974? Certamente que sim. Sê-lo-emos, e em que campos, mais do que o depois da entrada na Europa e a na União Monetária? Conhecendo melhor a nossa sociedade, os nossos direitos e obrigações políticas, poderemos afirmar que o povo português interiorizou na sua prática política aquelas regras mínimas que definem a democracia (regras de liberdade, de igualdade, de justiça)? Resposta é, mais uma vez, “sim”. Porem, qualquer coisa nos deixa irremediavelmente insatisfeitos. “Sim, sim”, mas… é como se o ganho em democracia ou em conhecimento da democracia que alcançamos sofresse de uma falha essencial. […]

Gostaria de insistir num ponto: o legado do medo que nos deixou a ditadura não abrange apenas o plano político. Alias, a diferença com o passado é que o medo contínua nos corpos e nos espíritos, mas já não se sente. […]
Por exemplo, o direito à cultura e ao conhecimento ainda não chegou ao sentimento da população portuguesa. […]
Numa palavra. O Portugal democrático de hoje é ainda uma sociedade de medo. É o medo que impede a crítica. […]
Portugal conhece uma democracia com baixo grau de cidadania e liberdade. […] Dito de outro modo: estamos longe de expressar, de explorar e portanto de conhecer e de reivindicar os nossos direitos cívicos e sociais de cidadania, ou seja, a nossa liberdade de opinião, o direito à justiça, as múltiplas liberdades e direitos individuais no campo social. […]
Digamos que o velho Portugal rural e pré-industrial fechado sobre o seu império colonial pertencia a categoria das sociedades disciplinares com as suas instituições correspondentes (escola, prisão, fabrica, exercito, Estado autoritário, etc.) A entrada de Portugal na Europa leva-o na direcção das sociedades de controlo.
Como consequência desta tensão, os hábitos de obediência e submissão que os portugueses trouxeram do autoritarismo salazarista mal começaram a desintegrar-se foram logo apanhados pelas tecnologias de controlo que surgiram. […] É, aliás, o que os discursos político, económicos, social, cultural das instituições e dos media não cessam de nos dizer. Não há outra vias (politicas, económicas, sociais), não há outra maneira de viver, de educar, de instruir, de tratar, de organizar o lazer, de viajar, de se divertir, da amar. A abertura à Europa e ao mundo oferece-nos nesta sociedade normalizada a tecnociência ao serviço da globalização.»
 
José Gil, Portugal, Hoje. O medo de existir, O relógio d’Agua, Lisboa, 2004
 
Com base na análise do documento, sintetize as bruscas mudanças políticas e sociais vividas em Portugal nos últimos 30 anos.
Publicado por História às 02:36
| Comentar
2 comentários:
De História a 10 de Junho de 2008 às 16:55
Apesar de se tornar difícil, pela proximidade cronológica, avaliar, historicamente, o período da última trintena de anos, existem alguns indicadores que permitem esboçar linhas de força da evolução portuguesa.

O envelhecimento da população: com uma pirâmide etária na forma de “cogumelo” (o topo, constituído pela população mais idosa, apresenta uma alargamento quase equivalente à base), Portugal debate-se com problemas de vária ordem, por exemplo: a desertificação do interior, os encargos médicos e sociais com a terceira idade, o encerramento de escolas por falta de alunos e de maternidades por falta de partos. Em compensação, o país pode orgulhar-se de ter uma das mais baixas taxas de mortalidade infantil da Europa.

O aumento geral dos salários, conciliado com a política de concessão de crédito às famílias, reflectiu-se num aburguesamento geral da população: é frequente, pelo menos nas regiões urbanas e litorais, que as famílias possuam casa própria, automóvel e despendam o seu rendimento, não só na alimentação, vestuário e contas correntes, mas também em telecomunicações, computadores pessoais e férias.

Uma política de protecção à maternidade (que tem feito aumentar, nomeadamente, o período de licença de parto) e o contacto com os modelos europeus provocaram uma evolução rápida das mentalidades que transformou radicalmente, no espaço de uma geração, a relação entre homens e mulheres e o estatuto destas na vida social. Em Portugal, na maioria dos casos, ambos os elementos do casal trabalham e as mulheres acedem, em maior número do que os homens, ao ensino superior.
No entanto, muito está ainda por fazer: por exemplo, uma em cada três mulheres é, no tempo actual, vítima de agressões por parte do companheiro.

Tal como aconteceu nos países da União Europeia, Portugal enveredou por uma aposta no sector terciário, destacando-se, nomeadamente, o sucesso das telecomunicações, do turismo (que teve, desde os anos 80, um boom na região do Algarve, por vezes à custa de atentados ao ambiente e da descaracterização urbanística) e das grandes superfícies comerciais. Simultaneamente, estreitaram-se as relações comerciais com os parceiros da União Europeia.

De país de emigrantes, até aos anos 60, Portugal transformou-se num país de imigrantes. A descolonização, nos anos 70, trouxe consigo a vaga de residentes nas ex-colónias; nos anos 80, a imigração brasileira conheceu uma acentuada expansão e, desde os anos 90, imigrantes da ex-União Soviética deslocam-se para Portugal aproveitando a livre circulação prevista no Acordo de Schengen. A imigração oriunda na República Popular da China tem, igualmente, registado um maior afluxo. Os imigrantes fornecem a Portugal os contingentes populacionais que compensam (em parte, apenas) o envelhecimento da população e transportam, consigo, o inevitável dinamismo daqueles que se aventuram a sair do seu país de origem. Por seu turno, a imigração coloca à governação e ao cidadão comum os desafios da legalização desburocratização e do acolhimento económico e social.

Depois de 48 anos ininterruptos de ditadura, Portugal iniciou, com a Revolução de 25 de Abril de 1974, um processo de democratização que não mais posto em causa.
Enquanto a década de 70 foi marcada por uma intensa militância e por propostas muito divergentes para o futuro do país, no período após a integração europeia a vida política caminhou para concentração dos votos, nos momentos eleitorais, nos dois partidos que alternam no poder. À semelhança do que ocorreu nos restantes países europeus, as propostas mais radicais foram tendo um papel cada vez menos actuante. A estabilidade política teve o custo do desinvestimento dos cidadãos: os níveis de abstenção cresceram e jovens, bem como a maioria da população, desinteressaram-se da militância política.

A integração europeia contribuiu para o fortalecimento de vínculos com as restantes democracias europeias. O isolacionismo a que Portugal estava votado durante a vigência do Estado Novo rompeu-se, e o país recebeu o estímulo do contacto com modelos socioculturais e mentais novos. O reconhecimento do prestígio de Portugal na União Europeia é evidenciado, nomeadamente, pelo convite para a ocupação de cargos de relevo na estrutura da comunidade.



De História a 10 de Junho de 2008 às 16:55
Num processo de crescimento muito rápido, Portugal descurou, no entanto, vários itens de aprofundamento do espírito democrático: continua a ter um dos índices de corrupção mais elevados da União Europeia e o débil empenhamento nas questões cívicas é sinal de falta de formação do espírito de cidadania.

Alguns sectores económicos e sociais continuam a acusar um imobilismo responsável pelo travão ao desenvolvimento: apesar dos progressos da alfabetização, o abandono escolar continua a ser um fenómeno muito preponderante, em especial nos meios rurais; o desafio da educação para todos tem sido um dos desafios fundamentais do desenvolvimento português; a integração de uma franja de carenciados (sem-abrigo, toxicodependetes) coloca ao Estado e às instituições de auxílio responsabilidades acrescidas; o desemprego, situado nos 6,8% em 2004, constitui uma das principais preocupações da população portuguesa, desde o trabalhador não-qualificado ao licenciado; a imigração crescente fornece mão-de-obra, jovialidade e espírito de empreedimento ao país, mas coloca-lhe, também, o desafio da integração na vida económica e social; os baixos investimentos na Investigação e Desenvolvimento são responsáveis pelo atraso científico-tecnológico português.


Comentar post

Externato Luís de Camões

Pesquisar

 

Junho 2013

Dom
Seg
Ter
Qua
Qui
Sex
Sab

1

2
3
4
5
6
7
8

9
10
11
12
13
14
15

16
17
18
19
20
21
22

23
24
25
26
27
28
29

30


Posts recentes

Guia de estudo para o exa...

Guia de estudo para o tes...

Apresentação "Do autorita...

Caderno Diário "Do autori...

A Revolução de Abril

A liberalização fracassad...

Continuidade e evolução

O isolamento internaciona...

A defesa da independência...

A defesa do Ultramar

A solução para o Ultramar

O sobressalto político de...

Apresentação "Os Totalita...

O Estalinismo

O Estado Novo

O Nazismo

O Fascismo

As consequências da Grand...

A Grande Depressão dos an...

Caderno Diário "A Grande ...

Os "loucos anos 20" e as ...

Caderno Diário "Mutações ...

A falência da Primeira Re...

O agravamento da instabil...

Caderno Diário "Portugal ...

Caderno Diário "As transf...

Da depressão económica à ...

Guia de estudo: As Revolu...

Guia de estudo: A Filosof...

Guia de estudo: O Absolut...

Guia de estudo: A Socieda...

Trabalho de pesquisa - A ...

Trabalho de pesquisa - A ...

Trabalho de pesquisa - A ...

Exercício 5 - A Declaraçã...

Exercício 3 - Manifestaçõ...

Exercício 2 - O Absolutis...

Exercício 1 - A Sociedade...

Do Absolutismo às Revoluç...

Guia de estudo: Humanismo...

Arquivos

Junho 2013

Abril 2013

Janeiro 2013

Dezembro 2012

Outubro 2012

Setembro 2012

Junho 2012

Maio 2012

Abril 2012

Março 2012

Fevereiro 2012

Janeiro 2012

Agosto 2011

Julho 2011

Junho 2011

Maio 2011

Abril 2011

Janeiro 2011

Dezembro 2010

Novembro 2010

Outubro 2010

Setembro 2010

Maio 2010

Fevereiro 2010

Janeiro 2010

Dezembro 2009

Outubro 2009

Maio 2009

Abril 2009

Março 2009

Novembro 2008

Outubro 2008

Junho 2008

Maio 2008

Abril 2008

Março 2008

Fevereiro 2008

Outubro 2007

Ligações